31 de mai de 2011

Para os melômanos

Para quem, como eu, gosta de acompanhar discussões acadêmicas sobre produção musical, a dica é o livro "Dez Anos a Mil - Mídia e Música Popular Massiva em Tempos de Internet". Disponibilizado gratuitamente na internet nos formatos PDF, EPUB e MOBI, o livro compila artigos de vários pesquisadores e tem a organização do professor Jeder Silveira Janotti Júnior (UFPE e UFAL), fera em traçar reflexões sobre música pop (ele prefere chamar de música popular massiva) e seus diálogos com mercado, comunicação e cultura.

Os melômanos (loucos por música) agradecem.

Vá lá: www.dezanosamil.com.br

30 de mai de 2011

Smells like May 68

Em tempos de marchas da maconha e da liberdade em São Paulo e de ocupação de praças na Espanha em pleno maio de 2011, parece até coincidência o lançamento do livro "Beauty Is in The Street" ("A Beleza Está nas Ruas", em tradução livre).

Ainda sem edição no Brasil, mas já disponível na Amazon, o livro faz um resgate visual dos protestos do histórico maio de 68 na França, mês marcado por uma série de protestos políticos naquele país - mas não só lá, e nós brasileiros sabemos muito bem disso.

São 200 pôsteres criados pelo chamado Ateleier Populaire, grupo de jovens que, ao criar os cartazes para espalhar as mensagens do movimentos pelas ruas, acabou criando uma identidade visual para aquela mobilização. Abaixo, algumas das imagens.

27 de mai de 2011

Jeneci fala



"Se faltar carinho, ninho, se faltar a paz, Minas Gerais". Cantarolando um trecho de "Três Dias", música de seu xará Marcelo Camelo, o músico paulista Marcelo Jeneci começa a conversa com o Pampulha. Logo, explica-se. "Tenho amigos que vêm pra Minas descansar e eu preciso fazer isso também. Muita gente diz que quando ouve o meu disco ou vai ao show sai com essa sensação de tudo mais calmo e eu mesmo não conheço tanto isso".

Pois agora Jeneci vai ter tempo para vivenciar a tranquilidade mineira. Ele se apresenta em Belo Horizonte nesta sexta-feira (27), no Conexão Vivo, e no dia 12 de junho, como atração do Natura Musical.

O músico volta à cidade um ano depois de uma passagem mais discreta, também pelo Conexão Vivo, em abril do ano passado. Àquela época, ele ainda não havia lançado seu primeiro disco, "Feito pra Acabar", que chegou ao mercado somente em novembro e imediatamente o projetou como uma das revelações da nova geração da música brasileira, fruto de um bom acolhimento do trabalho por público e crítica. Apesar do primeiro disco, Jeneci já acumula dez anos de carreira como músico. Começou como integrante da banda de Chico César, tornou-se parceiro de composição de Arnaldo Antunes e Zélia Duncan e é autor do hit "Amado", sucesso de Vanessa da Mata que integrou a trilha da novela "A Favorita".

Abaixo, a íntegra da entrevista que fiz com o músico na semana passada, quando ele veio a BH para o lançamento do Natura Musical.

Você foi músico de apoio de bandas e compositor. A carreira solo era um desejo ou simplesmente aconteceu?

A carreira solo, que tá começando agora, ela na real é resultado de uma vontade que foi nascendo ao longo desses anos em que eu tocava em outros projetos, na banda do Chico, na banda da Vanessa da Mata. E acho que de tanto ver o que eles conseguem fazer ali do palco, vendo aquela multidão cantando e embalando no show deles, eu aos poucos fui sentindo vontade não de fazer igual, mas eu percebi que só tocar não era o suficiente, sabe?, que eu precisava escrever, que eu precisava cantar também. Foi uma vontade que foi se acumulando, e só depois de dez anos foi que realmente começou a sair mesmo. Isso é recente. É quando eu comecei a compor as músicas desse disco, “Feito pra Acabar”, que acabou de ser lançado no final do ano passado. Então agora que ele está começando a valer.

Como você vem recebendo a boa recepção do seu disco?

Na real, eu nunca tinha experimentado ser foco de uma crítica pra dizer bem ou mal de um trabalho meu. Eu sempre estava tocando na banda de quem corria esse risco. Eu não criei muita expectativa, mas também não fiquei com muito medo se iam falar bem ou falar mal, porque quando a gente acredita no que a gente faz, parece que pouco importa o que vai acontecer com isso. Mas eu acho que é mais fácil dizer isso agora depois de ter tido uma experiência muito positiva. Se tivesse sido o contrário, “ah, o disco dele é ruim, não ouçam”, talvez eu não estaria dizendo isso. Mas eu fiquei muito feliz com a repercussão. Na real, eu sentia falta de uma música que ao mesmo tempo fosse simples e direta e dissesse coisas com uma profundidade e coisas muito sinceras, menos manipuladas, e eu comecei a perceber que o que eu queria fazer era isso e que existia uma necessidade de algo que carregasse essa leveza, uma carência no ar no público geral para se alimentar um pouco disso. Então eu tinha uma certa confiança de que assim que estivesse pronto, justamente pela maneira como foi feito, muito cuidadoso, muito caprichado, alguns anos ali só estruturando isso no cine-pensamento, na cabeça, eu fiquei com uma expectativa de que isso realmente fosse cair bem no coração de muita gente e aí fiquei muito entusiasmado com isso e saí fazendo. Tô muito feliz em ver que a crítica falou bem e que o público tá aumentando, sabe? Não é uma coisa muito rápida, que aos pouquinhos vai crescendo, vai tendo seu lugar. Eu me inspiro muito nas pessoas que conseguem fazer isso, que conseguem achar o lugar do respeito, não o lugar comercial. Às vezes as duas coisas se cruzam e é muito legal quando acontece, mas eu prefiro ficar em busca de fazer a música que com o passar do tempo continue boa, ao invés de uma música que queira insanamente criar uma multidão de fãs de uma hora pra outra.

Muitas de suas músicas têm elementos que me remetem à música romântica e brega. Você ouviu muito isso?

Eu ouvi bastante na infância os discos do Roberto Carlos, eu ouvi também bastante os discos do Alceu Valença e na adolescência comecei a conhecer o universo do Tom Jobim, ao mesmo tempo em que eu passava o dia ouvindo rádio e vendo TV Aberta. Eu sempre consumi muita cultura popular, porque eu vivia num bairro afastado da cidade que, além de ser uma família feliz que estava ali consumindo cultura popular proque só chegava lá o que era realmente muito forte, tudo o que era em torno daquele bairro era em torno de uma cultura direta, de algo muito forte, só é bom que tem essa força de comunicação. E quando comecei a viajar pelo mundo eu comecei a ter outro tipo de ensinamento. Foi quando eu conheci o José Miguel Wisnik, quando conheci o Luiz Tatit, o Arnaldo Antunes e eu, muito estudante, um cara que sempre fui muito ligado e viciado em querer ficar perto de quem tem muito o que me ensinar. Quando conheci esses caras comecei a ter contato com uma cultura que eu não tinha no lugar onde eu nasci. E aí acho que essas duas coisas foram se compatibilizando em mim e na hora de fazer alguma coisa autoral, é natural que essas duas coisas apareçam como a principal característica. Eu acho que em qualquer área, se a gente puder se aproximar da linha que une, e não da linha que separa os mundos, eu acho que é um bom caminho. A tua música é que a toca no radinho de pilha, a minha é que a toca na USP. A minha é que aproxima as duas coisas. Não sei se é exatamente isso que eu faço, mas como eu gosto dos extremos, e quando a gente toca e se expressa, a gente acaba dizendo muito de si mesmo, acho que eu acabo projetando isso no que eu faço e torcendo para que alguém diga exatamente isso: pois é, sua música....

O quão próximo é seu trabalho desse tipo de música? E por que é brega quando certos caras cantam, mas não é brega quando Jeneci canta?

Eu acho que já aconteceu de maneira muito pior em outra época. Eu acho que hoje em dia essa linguagem romântica-brega está sendo revisitada e repaginada por muitas bandas cool ou por uma turma formadora de opinião, isso está sendo revalorizado e repaginado, sendo reescolhido. Eu acho que ainda acontece isso num público muito específico e afastado, que não tem tanto interesse em saber das coisas de mais vanguarda. É quem tá mais tranquilo e quer ficar sem prestar atenção no atual. Mas, por exemplo, eu já acho o contrário. Se eu tenho uma música gravada pelo Odair José é sonho conquistado, se eu tenho uma música gravada pelo Roberto Carlos, beleza, agora eu posso parar de fazer música (risos). E eu acho que tem muita gente que pensa assim. Acho que desde a Tropicália, o Caetano fez muito esse papel de num disco colocar uma música que ninguém gravaria, antes desse brega tinha aqueles caras mais cafonas, da rádio, cantando muito pra fora, e ele acabou abrindo essas portas. Hoje parece tudo mais fácil pra gente que veio depois por conta de um trabalho que foi um marco, como a Tropicália. É como se tivesse só uma pista e agora pintou uma outra e agora várias gerações começaram a trilhar por essa e várias bandas e artistas foram abrindo novos caminhos dentro dessa outra avenida, aí os Los Hermanos acabaram abrindo um caminho que tá trazendo muita gente hoje em dia.

Como sua sanfona convive com uma banda cuja formação é aquela clássica do pop/rock?

Ela tem que conviver porque é o instrumento que eu certamente vou carregar pro resto da vida, é o instrumento que me leva pra lugares pra onde eu nunca pensei em ir, sabe? Acaba que quando eu deixo de tocar a sanfona, eu perco um pouco da força que tem quando a gente tá com a banda tocando guitarra, bateria, e a sanfona não está no meio. Não tem porque não misturar, é muito natural pra mim, eu não consigo pensar, “ah, vou usar a sanfona em alguma coisa”, não tem esse pensamento, é uma consequência do que eu sou, com o que os músicos que tocam comigo são, é muito natural. O piano foi o primeiro instrumento, a sanfona veio mais tarde, mas é o que tomou todo o espaço.

A Laura Lavieri canta em praticamente todas as faixas, a voz dele é bem evidente nas músicas. Está presente em algumas fotos de divulgação sua também. Parece ser quase uma dupla, apesar de você se apresentar como artista solo. Qual o papel dela no seu trabalho?

É o peso de uma parceira que carrega a mesma importância que eu nesse trabalho. Durante muito tempo, eu tive um dilema de pegar isso tudo que foi muito vivido por mim, todas as minhas lembranças e todos os meus conceitos, que foi o que eu contabilizei pra fazer o meu primeiro disco, eu fiquei muito na dúvida se deveria ser um disco que carregasse o meu nome e o dela. Eu só não fiz isso porque tudo que está ali diz respeito às coisas que eu vivi, não as que ela viveu. Agora, na questão estética e no formato, tudo o que está ali é muito dela também. É uma parceira fundamental, eu não tenho nenhuma vontade de fazer show se ela não estiver.

Como vocês inciaram essa parceria?

A gente se encontrou numa situação muito bacana, não é uma questão estética a nossa parceria. Eu conhecia o pai dela, o falecido Rodrigo Rodrigues. Quando eu saí da casa dos meus pais, ali em Guaianazes, eu fui pra zona oeste de São Paulo, na Pompéia, Vila Madalena, onde as coisas acontecem mais e conheci o pai dela que me apresentou o bairro. Ele era um cantor excelente, tinha um grupo chamado Música Ligeira. Quando o Caetano vinha a São Paulo fazer o show, sempre chamava o Rodrigo pra cantar, pra dar canja, por admirar ele. O João Gilberto quando ia a São Paulo pedia pro Rodrigo passar o som pra ele, ele era muito fino, muito classe. Aí a gente começou a ensaiar um show em homenagem ao Chet Baker porque ele cantava realmente muito parecido. E nisso, ensaiando na casa dele, via a Laura, com 11, 12 anos, passando pela casa. Eu devia ter uns 18. E aí, eu todo dia almoçando com ele, porque ele tinha uma ótica ao lado da casa onde eu tinha alugado, então a gente sempre se via todos os dias e viramos grandes amigos. No decorrer desses ensaios ele descobriu que estava doente, que tinha leucemia, e acabou morrendo dois anos depois, e a gente não conseguiu fazer o show que a gente queria fazer. E aí a Laura apareceu cantando pela primeira vez em homenagem a ele, cantando “Across the Universe”, dos Beatles. E quando eu vi ela cantando, usando o mesmo óculos que ele usava, um Ray-Ban, já que ele tinha uma ótica ele sempre se apresentava com óculos. Achei a fisionomia muito parecida e a voz muito sofisticada. Fiquei chocado com aquilo, chamei ela pra se aproximar um pouco de mim e a gente começou a se aproximar mais até que eu virei pra ela e falei, “bom, porque a gente não começa a compor e fazer um trabalho nosso, já que a gente gosta das mesmas bandas, das mesmas coisas?”. Até então eu ainda não tinha nenhuma música, aí comecei a compor, fiz “Amado”, pra Vanessa da Mata, fui fazendo um monte de músicas pra Laura cantar e aos poucos comecei a cantar também e esse trabalho foi ganhando essa força. É um exemplo das coisas que existem antes de acontecer. A nossa parceria é muito mais profunda do que somente estética.

Há quase um ano, você esteve no Conexão Vivo também. Quais as diferenças entre esses dois momentos?

Muita, porque não tinha o disco ainda quando eu vim, o show não estava tão formatado e tão redondo como está e não tinha muita gente pedindo pra que eu tocasse aqui como tem hoje. Nada disso acontecia. Aí eu fui olhar a promoção e falei, “caramba, me colocaram no melhor horário! Que legal!”. As coisas estão começando a acontecer.

26 de mai de 2011

Os Beat Alls

Aproveitando o aumento exorbitante nos níveis de beatlemania por conta dos shows do Paul nesta semana, posto aqui um dos episódios de desenho animado mais legais de todos os tempos (acho que só rivaliza com a primeirra aparição da Towelie em South Park, assunto sobre o qual já falei aqui). Trata-se de "Conhecendo os Beat Alls", das Meninas Super Poderosas. Toda a história é permeada por referências à trajetória e a trechos de música dos Beatles. Enjoy it.



25 de mai de 2011

Overmundo em revista

O Overmundo, portal colaborativo de conteúdo sobre cultura, agora também coloca luz sobre manifestações culturais "off-mídia" do Brasil por meio de uma revista. Para ler no computador ou no tablet, a publicação funciona como uma extensão do portal, com material exclusivo, mas também remete para o que há de mais interessante no site.

Na primeira edição, uma reportagem sobre o coladinho, ritmo que cresce no Nordeste, e outra sobre a "polêmica" que opõe as formas de consumo do açaí no sul e no norte do país.

Baixe a revista aqui.

24 de mai de 2011

Chart yourself

Daytum é uma ferramenta para criação de infográficos pessoais. Com ela, qualquer informação besta da sua vida, como os tipos de bebida que você come ou seu desempenho nos games, pode ser organizada em infográficos atraentes, dignos daqueles feitos pelos jornais e revistas.

Já estou tentada a criar um e perder mais um pouco do meu tempo neste mundinho 2.0.

Vá lá: daytum.com

23 de mai de 2011

A segunda vez

Dizem por aí que piada contada pela segunda vez não tem graça. Que a segunda vez que nos apaixonamos jamais superará as inesquecíveis lembranças do primeiro amor. E o segundo encontro com um Beatle? Tem menos graça e já não deixa emoções tão fortes quanto o primeiro show?

A apresentação de Paul ontem, no Engenhão, poderia se encaixar nessa teoria. Afinal, além de o setlist ser praticamente idêntico ao do primeiro show de São Paulo, em novembro do ano passado (as exceções foram a entrada de "Hello Goodbye" e a ausência de "Venus and Mars/Rock Show", "My Love" e "Highway"), ficou claro para quem foi às duas apresentações que Paul segue um script em seus shows (a saudação ao público na língua local antes de "All My Loving", por exemplo).

Vamos com calma, porém. Paul não seria considerado um dos grandes criadores da música pop, como o é hoje, se tivesse passado toda sua carreira preso a padrões. Pelo histórico dos Beatles, sabemos que ele, John, George e Ringo sempre estiveram a anos luz de distância do que se entende por limitação. Se o show segue um roteiro, talvez seja porque é necessário ter um modelo "seguro" que vai chegar a públicos diferenciados com reações imprevisíveis. Faz parte do showbusiness, não podemos negar.

Mas, se por um lado, Paul não deixa de seguir um script, por outro, é flexível o suficiente para ir além dele quando o público pede. Foi o que aconteceu ontem. Ele fez todas as intervenções habituais. Mas falou mais que o de costume, brincou com o público espontaneamente, se emocionou com a surpresa preparada em Hey Jude. Em resumo, correspondeu à reação de que, foi ao Engenhão.

Nesse aspecto, Paul ganha um ponto em relação a seus colegas. George relutou muito em voltar aos palcos, o que não permitiu aos fãs terem esse retorno por parte do guitarrista. John insistiu em criticar o culto aos Beatles, provocando uma reflexão necessária sobre o status da banda. Ringo, digamos, tem aquela discrição típica dos bateristas. Paul, por sua vez, que hoje concentra em sua figura boa parte da história dos Beatles devido à ausência de dois de seus companheiros já falecidos, vai na contramão e acolhe a carência e o furor dos fãs dos fab four.

Acho que é uma espécie de reciprocidade, visível na apresentação de ontem, principalmente por eu ter ficado na grade, tão perto dele - aquele pontinho azul no palco do show do Morumbi, que só tomava forma numa impessoal tela de LED, finalmente se transformou em alguém de carne e osso, com todas as suas reações e expressões. Isso coloca por terra qualquer "teoria" da segunda vez. Soa suspeito ouvir isso de uma fã de Beatles, mas a história está aí para provar que qualquer coisa vinda de qualquer um deles tem dimensões maiores que o normal. Portanto, acreditem: o show de ontem foi sublime, como se fosse o último, o único ou o primeiro. Graças a Paul.

20 de mai de 2011

Ele de novo



Achava que havia sido uma oportunidade única na minha vida ver Paul ao vivo. Mas eis que Macca resolve surpreender e voltar ao Brasil exatos seis meses após sua visita, fato que imagino ser inédito aqui no país para um artista do porte dele (pensando bem, é inédito, sim, porque do porte de Paul, só os outros três integrantes dos fab four, que nunca passaram por aqui).

Agradeço imensamente aos deuses da música (e, claro, aos empresários) que trouxeram Paul de volta ao Brasil. Só que essa graça não me basta. Depois de ter a mais bela e intensa experiência em uma apresentação, naquela noite de 21 de novembro, no Morumbi, quero reviver tudo aquilo e muito mais. Não estou muita coisa, pois sei que só você, Paul, pode superar você mesmo. E suspeito que você vai tirar de letra meu desafio.

PS: Entenda toda a trajetória da minha comoção com este show aqui, aqui e aqui.

19 de mai de 2011

O pop do pop

Um máximo a série LPop do artista espanhol Antonio de Felipe. São intervenções típicas de pop arte sobre um dos elementos mais pop que essa linguagem visual gerou no último século: capas de disco.






Veja a série completa no site do artista: www.antoniodefelipe.es

18 de mai de 2011

Lembrar para não esquecer*

"Todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história ou contamos uma história a seu respeito". A receita de Isak Dinesen, pseudônimo usado pela escritora dinamarquesa Karen Blixen, parece estar se multiplicando do outro lado do Atlântico. Num movimento de involuntária convergência, o cinema, a literatura e a música preparam uma série de produções que se voltam para a ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, na tentativa de resgatar as várias histórias das mágoas e marcas deixadas por esse período.

É fato que o tema nunca deixou de ser abordado, mas o passado, às vezes, inevitavelmente, se esbarra com o presente. Foi numa situação dessas que nasceu um dos materiais relacionados ao período, que em breve será lançado. Exatamente no ano em que se completam 30 anos do atentado do Riocentro, quando duas bombas explodiram, matando um membro das forças armadas e ferindo outro, frustrando um ataque planejado contra a multidão que se reunia para um show em comemoração ao dia do trabalho, o produtor musical Marcelo Fróes deparou-se com parte da gravação do show daquela noite, enquanto pesquisava arquivos do Instituto Cravo Albin.

O produtor encontrou mais de uma hora de áudio, com apresentações de Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Gal Costa, Moraes Moreira, MPB4, Gonzaguinha e Luiz Gonzaga, que serão compiladas no CD provisoriamente batizado de "Show 1º de Maio", cujo lançamento deve ocorrer até agosto deste ano. Registro raro do encontro de grandes nomes da MPB, o álbum trará à tona "a lembrança boa de uma noite ruim", considera Marcelo. "‘Eles’ não conseguiram dizimar a MPB. A fita é uma cápsula do tempo que o destino guardou pra comprovar isso 30 anos depois", completa Marcelo.

Vlado
Outro caso daquele passado que voltará à tona é o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 nas dependências do Dops - inicialmente, os militares alegaram que Vlado havia se suicidado, mas um processo movido pela família do jornalista, ainda durante o regime militar, conseguiu comprovar que a morte havia sido provocada por tortura. O jornalista Audálio Dantas, à época presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, entidade que encabeçou as mobilizações que, impulsionadas pela morte de Herzog, ampliaram o conhecimento público da prática de tortura por parte dos agentes federais, decidiu contar a história a partir de sua própria perspectiva.

"É um projeto que eu descartei durante mais de 30 anos. Achava que as coisas já tinham sido ditas, mas cheguei à conclusão que há outras palavras para contar", diz Audálio sobre o livro "A Segunda Guerra de Vladimir Herzog", que será lançado pela Editora Record e deve chegar às livrarias no segundo semestre. Para o jornalista, este e outros projetos que se voltam para o período militar são um eco mais distanciado do próprio caso de Herzog, considerado um dos desencadeadores do processo que culminou na abertura política.

Mais que um eco, algumas dessas iniciativas podem ser também, para alguns, o primeiro som que se houve sobre os chamados "anos de chumbo", acredita o autor de novelas Thiago Santiago, responsável por "Amor e Revolução", trama exibida pelo SBT. "É uma novela que está apresentando essa época para milhões de brasileiros que não conheciam a história", afirma, lembrando que este é o primeiro folhetim a tratar dos governos militares - na TV, o assunto havia sido abordado somente por minisséries. "É um tema difícil, mexe com muitas feridas não cicatrizadas. Isso explica porque ele não havia sido tratado em novelas ainda, mas, por outro lado, explica também porque há gente querendo falar mais sobre ele", diz Thiago.

Cinema faz paralelo com o presente
Ainda que o foco esteja no passado, alguns projetos dialogam com o presente. O filme “Sala de Espera”, da cineasta Lúcia Murat, vai narrar o reencontro, décadas depois, de um grupo de amigos que resistiram à ditadura, provocando uma revisão das utopias daquela época. O longa deve ser finalizado em dezembro e terá Irene Ravache e Otávio Augusto no elenco. Ainda sem previsão de estréia, o filme “Primavera”, com Denise Fraga no elenco, segue a mesma linha. Inspirado na obra do escritor uruguaio Mario Benedetti, o filme vai mostrar um casal que se separa porque o marido se torna preso político no Uruguai. A esposa, brasileira, migra para a Argentina.

Entrelaçando o histórico de ditaduras comum a esses três países, o longa vai tirar o foco da tortura e da luta armada para tratar dos reflexos da repressão nas relações pessoais, mantendo conexões com o presente. “É muito parecido com o que acontece hoje no mundo. Tudo o que estourou no Egito, na Líbia, é por conta desses governos que continuam usando a força”, observa o diretor Luiz Villaça.

Todas essas iniciativas demonstram o quanto o país ainda tem a refletir sobre aquele período, observa o professor do departamento de Ciências Sociais da PUC-Minas, Ricardo Ribeiro. “Com toda a censura e repressão daquele momento, a sociedade brasileira foi muito desafiada a pensar. Isso faz com que o período seja extremamente interessante para investigação. Mas não se deve apenas trazer o passado para o presente, é preciso buscar elementos que sinalizem o presente e o futuro do país”.

Clique na imagem para ampliar

Leia mais aqui.

*Reportagem publicada na edição de 14/05 d0 Jornal Pampulha

17 de mai de 2011

Natura Musical

No dia 12 de junho, quatro praças de BH vão sediar shows gratuitos de mais de 20 artistas de Minas e do Brasil, dentro da programação da primeira edição do festival Natura Musical. Com um formato já conhecido dos belo-horizontinos, "emprestado" do Conexão Vivo (coincidentemente, a produtora que cuida dos dois eventos é a mesma), os shows promovem encontros no palco entre gente daqui e de fora do estado. A intenção da empresa patrocinadora é dar continuidade ao evento e realizá-lo anualmente.

Veja abaixo a programação, inteiramente gratuita.

Praça da Liberdade
10h Oficina Grupo Trampolim (MG)
11h Palavra Cantada (SP) – infantil
15h30 Pato Fu – Música de Brinquedo (MG) – infantil
17h Lô Borges e Pedro Morais (MG)

Praça Duque de Caxias
10h15 Pequeno Cidadão (SP) – infantil
12h Oficina do Grupo Trampolim (MG)
14h30 Karina Buhr (PE)
15h40 Renegado (MG)
16h50 Marcelo Jeneci (SP)

Parque Lagoa do Nado
10h30 Grupo Curupaco (MG)
12h Vivaviola e Meninas de Sinhá (MG)
14h30 Oficina do Grupo Trampolim (MG)
15h40 Marku Ribas (MG)
17h Zé da Guiomar (MG)

Praça da Estação
17h30 Orkestra Rumpilezz (BA)
19h Aline Calixto (RJ) convida Carlinhos Brown (BA)
20h Milton Nascimento (MG) convida Maria Gadú (SP) e Roberta Sá (RN)

16 de mai de 2011

Qual é a cor do amor?

"Qual é a cor do amor?" é o nome da nova música de Cazuza. Sim, isto mesmo. O cantor e compositor deixou quase 60 letras que até então permaneciam inéditas - sem ter certeza do destino que o filho gostaria que as músicas tivessem em sua ausência, a mãe de Cazuza, Lucinha Araújo, havia mantido todas elas guardadas desde que ele morreu.

Agora, porém, a família do cantor liberou uma dessas composições, exatamente "Qual é a cor do amor?" para o Prêmio Musique. Realizado pelo Grupo Estado, trata-se de um concurso em que um compositor apresenta uma letra para que músicos criem a base musical da letra. Em todas as outras edições do prêmio, o próprio compositor selecionava as composições de sua preferência até escolher a versão definitiva. Desta vez, por questões óbvias, quem escolherá a canção será um júri formado por gente que conviveu com Cazuza (sua família, o pessoal do Barão Vermelho).

Mais detalhes aqui.

Abaixo, os versos da música.

"Qual é a cor do amor" - 1989
Primeiro é o beijo
Quente, procurado
A língua procurando a outra
E vendo se a boca combina
Se combina o beijo
Meio caminho andado
Depois é a pele
Se a textura vale
O pelo com pelo
Ou o pelo com o seu pelo
Ou os pelos com meu pelo
Ou o medo
Depois o cheiro
Um procura no outro
O cheiro de colônia ou
O cheiro de prazer
E os dois se embriagam
Ou vão até o banheiro
Depois a cor
O amor tem cor?
Cada amor tem uma cor
Cada beijo tem uma cor
Cor de caramelo doce
Cor de madrugada fria

13 de mai de 2011

Dez anos de Mombojó

O primeiro disco do Mombojó, "Nadadenovo", lançado em 2004, faz a presença da banda no cenário musical parecer mais curta, mas já fazem dez anos que os pernambucanos estão na ativa.

Contrariando o que anunciava o nome de batismo de seu debut em disco, os herdeiros do manguebeat surgiram com um som enigmático e inclassificável, por isso diferenciado, tendência que se manteve também em "Homem Espuma" (2006) e "Amigo do Tempo" (2010).

Para celebrar a primeira década de existência, a banda se apresentou nos estúdios do Show Livre e trocou algumas palavras sobre sua carreira. Assista aqui.

11 de mai de 2011

11 de maio: Salvador Dalí

O aniversário é do Dalí (e meu também, sério), mas quem ganha o presente é você (todos nós, na verdade). A dica para o dia que marca o nascimento de um dos meus pintores preferidos é o catálogo virtual da obra do surrealista.

Bem simples de ser pesquisado, o catálogo tem duas opções de busca: cronológica e por coleção. Nele, estão listadas as obras produzidas até 1951. Em breve, ele será finalizado, com a inclusão das obras feitas por Dalí até 1983, ano em que ele parou de pintar em função do Mal de Parkinson.

Vá lá: www.salvador-dali.org

10 de mai de 2011

Utopian Constructions

Utopian Constructions é um portal que reúne mais de três mil pôsteres de diversos países e com temáticas distintas produzidos ao longo do século XX. Espécie de história pop ilustrada dos últimos cem anos, o site tem um sistema de busca refinado: as imagens podem ser procuradas por país, data, autor, elemento gráfico, expressão facial, dentre outros.

A iniciativa é da Nanyang Technological University, de Cingapura, e tem a participação do professor da Escola de Belas Artes da UFMG, Heitor Capuzzo.

Vá lá: webposters.adm.ntu.edu.sg

Estados Unidos, 1942

União Soviética, 1961

Estados Unidos, 1972

Brasil, data desconhecida

França, 1926

9 de mai de 2011

Conexão no parque

Cumprindo a promessa de fazer uma edição com atrações mais dilatadas, depois de passar pelo Palácio das Artes e por praças de BH, o Conexão Vivo se aproxima de sua terceira e derradeira etapa de atrações musicais. O desfecho será no Parque Municipal, habitat natural do projeto, do dia 25 ao dia 29 de maio. Os ingressos mantêm o preço padrão do evento (R$20 a inteira), com uma cortesia no último dia de shows: entrada gratuita. Abaixo, a programação:

Quarta-feira, dia 25 , a partir das 19:30
Capim Seco (MG) convida Siba (PE)
Porcas Borboletas (MG) convida Paulo Miklos (SP)
Deco Lima e o Combinado (MG) convida Fred 04 (PE) e Angu Stereo Club (MG)
Marku Ribas (MG) convida Zérró Santos (SP)
Móveis Coloniais de Acaju (DF)

Quinta-feira, dia 26 , a partir das 19:30
Mostra Nova Música Instrumental Mineira apresenta: Felipe José (MG) convida Elísio Pascoal (AL)
Karina Buhr (PE) convida Edgard Scandurra (SP)
Vitor Santana (MG) convida Pedro Sá (RJ) e Marcos Suzano (RJ)
Tulipa Ruiz (SP)
Zé da Guiomar (MG) convida Wilson das Neves (RJ)

Sexta-feira, dia 27 , a partir das 19:30
The Hell´s Kitchen Project (MG) e convidado
Julgamento (MG) e convidado
Lucas Avelar (MG) convida Affonsinho (MG)
Gilvan de Oliveira (MG) convida Armandinho (BA)
Marcelo Jeneci (SP)

Sábado, dia 28 , a partir das 19:30
Babilak Bah (MG) convida Juarez Moreira (MG)
Senta a Pua! (MG) convida Eduardo Neves (RJ)
Black Sonora (MG) convida Di Melo (PE)
Graveola e o Lixo Polifônico (MG) convida Jards Macalé (SP)
Flávio Renegado (MG) convida Maria Alcina (MG)

Domingo, dia 29 , a partir das 10:00 (entrada gratuita)
Catibiribão (MG)
Wilson Dias e Pereira da Viola (MG) convidam Patrícia Sene
Cléber Alves convida Nivaldo Ornelas, Mauro Rodrigues (MG) e Teco Cardoso (SP)
Juarez Moreira (MG) convida Diego Figueiredo (SP)
Suíte Para os Orixás convida Renato Motha (MG)
Juarez Maciel e Grupo Muda (MG) convidam Barbatuques (SP)
Warley Henrique (MG) convida Aline Calixto (MG)

Conexão Vivo
25/05 a 29/05
Parque Municipal
R$20 (inteira) e R$10 (meia), exceto domingo (29), quando a entrada será gratuita
Pontos de vendas serão anunciados em breve
Informações: www.conexaovivo.com.br

7 de mai de 2011

Instantâneo ao vivo



“Uakti 4 Tempos” é como um instantâneo do passado em pleno palco. O espetáculo que o grupo apresenta neste sábado (7), no Palácio das Artes, às 21h, faz uma síntese dos últimos quinze anos do trio, ao mesclar repertório de seus quatro álbuns mais recentes. “A gente está junto há mais de trinta anos. É para revelar como os grupos musicais passam por várias estações”, diz Paulo Sérgio Santos sobre o conceito do show.

De “Trilobita” (1997) e “Águas da Amazônia” (1999), Paulo destaca as parcerias com o compositor norte-americano Philip Glass e projeção que o segundo trabalho deu ao grupo no exterior. Já “Clássicos” (2003) evidencia a ligação do grupo com a música erudita2003 e “OIAPOK XUI” (2005) reforça a musicalidade brasileira. Para Paulo, no palco, a síntese desses trabalhos demonstra que “o Uakti é um grupo ativo, temos vários projetos, estamos sempre trabalhando bastante”.

Para o fim do ano, o Uakti prepara um disco com versões de músicas dos Beatles e, para 2012, álbum e turnê nacional com a cantora Mônica Salmaso.

Uakti
7 de maio (sábado)
21h
Palácio das Artes
R$ 60,00 (inteira), R$ 30,00 (meia-entrada)
Informações: (31) 3236-7400

5 de mai de 2011

Conexão Vivo nas praças

Depois do Palácio das Artes, chegou a vez do Conexão Vivo dar as caras nas praças de BH, a partir deste sábado (7), com atrações gratuitas. A programação está abaixo. Do dia 25 a0 dia 29 de maio, será a vez do Parque Municipal, "habitat natural" do Conexão. Em breve, a programação para a última semana do mês será anunciada.


Praça do Papa
Dia 7, sábado, às 16h
Chico Amaral (MG)
Sérgio Santos (MG) convida Joyce (RJ)
Celso Moretti (MG) convida Sandra de Sá (RJ)
Pedro Morais (MG) convida Nina Becker (RJ) e Cobra Coral (MG)

Dia 8, domingo, às 16h
Pequenas Sessões – Constantina (MG) convida Wado (AL)
Rodrigo Borges convida Lô Borges (MG)
Onda Vaga (ARG)
Moraes Moreira encontra Lucas Santtana e Márcia Castro (BA)

Barragem Santa Lúcia
Dia 14, sábado, às 15h30
UAKTI (MG)
Grupo Curupaco (MG)
Mostra Nova Música Instrumental Mineira – Rafael Martini convida Titane (MG)
Tom Nascimento (MG) convida Chico César (PB)
Chico César (PB)

Dia 15, domingo, às 15h30
Mostra Nova Música Instrumental Mineira – Humberto Junqueira convida Flávio Henrique
Formosas – Babaya, Lu, Celinha convidam Wander Lee (MG)
Tia Nastácia (MG) convida Pupilo (PE)
Emicida (SP)
Maurício Tizumba (MG) convida La Bomba Del Tiempo (ARG)

Palco Hip Hop – Barreiro
22 de maio, a partir das 14h
DJs Bené Ramalho e Alexandre de Sena (nos intervalos entre os shows), Nascer MCs, Cia de Dança Liberdade, Zaika, Duelo de MCs; Face 3 DJs, MV Bill, Grupo A Corte, S.O.S Periferia
Local: Avenida Afonso Vaz de Melo s/n em frente à PUC MG – Barreiro

4 de mai de 2011

Proibidos para menores*

Crueldade, violência e punições severas no lugar de doces princesas e do final feliz. Se tivessem conservado suas primeiras versões, surgidas nos tempos da oralidade, hoje os contos de fadas seriam proibidos para menores. O ar encantado, ideal para entreter crianças, é tão recente quanto o próprio conceito de infância. Mesmo os primeiros registros escritos dos contos, feitos pelo francês Charles Perrault, no século XVIII, e pelos irmãos Grimm, no século XIX, carregam detalhes considerados não muito adequados para o público infantil.

“As versões que a gente conhece hoje vieram do século passado. A criança, em tempos remotos da sociedade humana, não era vista com a especialidade com que é vista contemporaneamente. Não se tinha essa noção da criança como ser frágil e diferenciado. Em meados do século XX é que se começa a ver o ser infantil como especial, em torno do qual a família se fecha”, explica Patrícia Magero Pitta, doutora em literatura pela PUC-RS.

Em função dessa nova concepção, os contos são bastante atenuados nesse período, num processo que tem a “ajuda” da Disney, que com a versão animada de “Branca de Neve e os Sete Anões”, de 1937, inaugura uma vasta série de adaptações de contos de fadas para os cinemas, as quais se tornariam referência na memória recente para essas antigas narrativas.

A presença dos aspectos mais perversos nas primeiras versões tinham uma razão de ser, segundo a professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Márcia Ivana de Lima e Silva. “Os contos traziam ensinamentos morais. Para que o bem triunfasse e o mal tivesse sua punição, havia certas maldades das quais o público não era poupado”, justifica.

Além disso, esses detalhes mais cruéis diziam algo da sua realidade original. “O que mais se repete nos contos são arquétipos de crianças abandonadas, rivalidade entre irmãos, perda dos pais. Supõe-se que João e Maria podem ter vindo mesmo de uma situação de fome e que os pais realmente largavam as crianças pela floresta”, completa a escritora e doutora em teoria da literatura Viviane Dexheimer Gil. Toda essa crueldade, apesar de não ser, de fato, adequada para as crianças, também tem seu lado bom. “As partes mais cruéis são as mais produtivas. Eles são instrumentos de fortalecimento de caráter, a velha ideia de que sofrer faz crescer”, afirma Patrícia.

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*Reportagem feita por mim e publicada na edição de 30/04 do Jornal Pampulha

3 de mai de 2011

E eles não foram felizes para sempre...*

João e Maria não são mais as crianças ingênuas que se deixavam iludir por uma casa feita de doces no meio da floresta. Adultos, se tornaram caçadores mercenários que querem vingança contra a bruxa que um dia ameaçou suas vidas. A Bela Adormecida, por sua vez, já não é vítima do feitiço de uma bruxa invejosa. Por vontade própria, ela cai em sono profundo para satisfazer o fetiche dos homens.

Não, não deu a louca nos contos de fadas. Foi o cinema que decidiu cortar o "felizes para sempre" do roteiro mais popular dessas histórias e recontá-las sob perspectiva mais adulta e, em alguns casos, mais sombria também, como nos exemplos acima. Seguindo "A Garota da Capa Vermelha", longa baseado no conto Chapeuzinho Vermelho que estreou nos cinemas este mês, pelo menos mais outros seis filmes inspirados em contos de fadas, mas com uma abordagem bem diferente das doces adaptações feitas pela Disney que se acostumou a ver nos cinemas, devem chegar à tela grande entre este ano e o próximo (veja quadro).

O olhar menos ingênuo e mais pesado que os novos filmes lançam sobre os contos de fadas espelha aspectos da própria atualidade. "A Fera", por exemplo, que ainda não tem data de estreia no Brasil, traz "A Bela e a Fera" para o século XXI propositalmente. "Eu adorei a ideia de tornar contemporânea a história e ambientá-la em um colégio. O conto trata da forma como se lida com a aparência e achei a escola o cenário ideal para explorar a obsessão que a nossa cultura e a nossa juventude têm pelo visual", comentou o diretor Daniel Barnz, em entrevista de divulgação do filme.

Essa sintonia com o presente ultrapassa a questão da temática e encontra eco também na própria origem dessas narrativas, cujas primeiras versões, de séculos atrás, nada tinham de infantil. "Na origem, os contos de fadas eram histórias para adultos. No século passado, eles foram bastante atenuados para se direcionarem às crianças, que passavam a ser vistas como seres frágeis e necessitados de proteção. E, agora, tais textos estão voltando a ser adultizados, assim como as próprias crianças vêm se mostrando", sugere Patrícia Magero Pitta, doutora em teoria da literatura pela PUC-RS. "A Garota da Capa Vermelha" foi um dos filmes da nova safra que buscou inspiração nessa fonte adulta. O roteiro foi criado após o estudo de inúmeras versões, muitas delas perturbadoras, que o conto de Chapeuzinho Vermelho teve ao longo da história. No filme, a Chapeuzinho é uma jovem crescida e sensual, apaixonada pelo lenhador, mas prometida em casamento para o ferreiro. Ela planeja fugir com seu grande amor, mas adia a decisão depois que a irmã é assassinada por um lobisomem, cuja identidade é desconhecida.

Ao mesmo tempo, porém, a avalanche de produções com esse viés também não deixa de contar com uma dose de esperteza da indústria do cinema. Assim como as adaptações de livros ou cinebiografias, os contos podem se converter em um filão lucrativo para a indústria. "Hollywood sempre investe em franquias estabelecidas, como os personagens de quadrinhos, os heróis. Os contos de fadas se enquadram na mesma ideia. Além disso, tem o conforto em saber que existe um público que já está familiarizado com essas histórias e vai querer ver novas versões", observa o crítico de cinema Pablo Villaça, editor do site Cinema em Cena.

Mas essa familiaridade com a estrutura das histórias tem efeitos que vão além da atração do público para as salas de cinema, acredita a professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Márcia Ivana de Lima e Silva. "Os contos de fadas continuam valendo até hoje na sua estrutura mínima, que propõe solução de problemas, e é por isso que eles acabam sendo aproveitados por esse cinema comercial. O filme acaba tendo essa particularidade de mostrar a solução das situações de uma forma tranquila, quase que renovando as nossas possibilidades de enfrentar o cotidiano, e isso independe da idade", explica.

Não por acaso, filmes para todos os tipos de público já se apropriaram das estruturas dos contos de fadas para construírem seus enredos, destaca a escritora e doutora em teoria da literatura Viviane Dexheimer Gil. É o caso de "Harry Potter", que trata do afastamento da família, a série "Crepúsculo", que aborda o impedimento amoroso, mas também "Cisne Negro", que gira em torno da libertação, e "Uma Linda Mulher", uma espécie de Cinderela dos anos 1980.

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*Reportagem feita por mim e publicada na edição de 30/04 do Jornal Pampulha

2 de mai de 2011

O Retrato de Dorian Gray - Versão sem censura


Acaba de ser lançado no exterior "The Picture of Dorian Gray: An Annotated, Uncensored Edition", livro que traz a versão original de "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde. A versão que todos nós conhecemos, lançadada em 1890, é um texto podado, com inúmeras modificações feitas para ocultar as referências de Wilde à homossexualidade e à decadência da sociedade vitoriana. Leia mais aqui e aqui.

Por exemplo, enquanto na versão censurada Basil Hallward, o artista que faz a pintura de Dorian Gray diz ao jovem em determinada passagem: "Desde que te conheci, sua personalidade teve a mais extraordinária influência sobre mim", no original que agora é publicado, o personagem declara: "É bem verdade que minha admiração por você guarda um sentimento que vai muito além daquele que um homem deveria dar a um amigo. Seja como for, eu nunca amei uma mulher".

O livro, em inglês, já está à venda na Amazon. Editores brasileiros, estamos no aguardo.

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